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Mulheres denunciam assédio de motoristas em cabines de pedágio no ES

"Homens alisam a nossa mão para pegar o troco, por exemplo", desabafou uma funcionária; Rodosol criou campanha de conscientização para alertar usuários

Cartazes de conscientização foram espalhados em vários pontos do pedágio
Cartazes de conscientização foram espalhados em vários pontos do pedágio
Foto: Gilson Luiz Garcia | Rodosol

Só quem é mulher entende como é incômodo ouvir uma cantada ou um assovio ao passar na rua. Um bom dia com entonação diferente, uma olhada que desagrada. O pior de tudo é que esse tipo de assédio também pode acontecer no ambiente de trabalho - como tem acontecido com as funcionárias que trabalham nas cabines de pedágio da Rodosol, que administra a Terceira Ponte e a Rodovia do Sol.

Em uma reunião informal, as funcionárias relataram ao presidente da instituição que sofrem inúmeros assédios de motoristas que passam diariamente pelas praças de pedágio. No meio desse drama, a empresa lançou,nesta terça-feira (21),  a campanha "Tá na cara que assédio é crime" em combate aos abusos, e frisa a causa de que "não é não!".

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O mínimo que uma pessoa espera, ainda mais em um ambiente de trabalho, é ser tratada com respeito - o que não tem acontecido nas cabines do pedágio. A empresa, então, instalou placas, painéis e cartazes no local com mensagens que estimulam o projeto contra o assédio. Os usuários também estão recebendo um cartãozinho com dois lados: um destinado a quem já sofreu assédio e o outro dando dicas para mudar esse tipo de atitude e realidade.

"AMOR DA MINHA VIDA"

Foto: A Gazeta

Em entrevista ao Gazeta Online, uma das funcionárias da Rodosol, que não será identificada, contou com detalhes como acontecem esses abusos. "

Os assédios são frequentes e têm de todos os tipos. Às vezes, ouvimos aquela gracinha de: nossa, que morena bonita. Um elogio, até aí, tudo bem para mim. Mas, às vezes, isso se excede: homens alisam a nossa mão para pegar o troco, por exemplo. É constrangedor

A funcionária também contou um caso específico de um idoso que passa diariamente na cabine do pedágio e insiste no abuso há meses. 

Ele decorou meu nome, me chama de amor da minha vida, pergunta por mim, se eu estava casada, se meu casamento ia bem.. Ele chegou a pedir pra eu procurá-lo assim que meu casamento acabasse e que ele não sentia ciúmes. É uma insistência muito chata que me deixa bastante constrangida

Ao perguntar como ela age diante dessas situações, a funcionária contou que "sempre tira por menos". "Ele é usuário e eu estou na posição de funcionária. Aí, o que eu vou fazer? Respondo com 'bom dia, boa tarde, obrigada'. Aquela coisa sem graça", desabafa.

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Sobre a campanha, ela torce e acredita que vai ajudar a combater as piadinhas sem graça e as investidas desagradáveis que recebe todos os dias. "Nem todos têm consciência do incômodo que causa. Eles acham normal tratar mulher de qualquer jeito", finalizou.

PEDIDO DE COMUNICADO

A gestora de Recursos Humanos da Rodosol, Márcia Abdalla Guerrieri, contou ao Gazeta Online que a ideia de colocar um comunicado na cabine do pedágio surgiu das funcionárias que trabalham lá todos os dias.

"A partir do pedido delas, pensamos no que poderia ser mais efetivo, então pensamos em uma campanha. É algo que vamos realmente tratar no dia a dia da empresa, nos contatos com as equipes", explicou. Márcia disse, ainda, que esta foi uma forma de responder às meninas e 'militar' na causa sobre assédio.

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A campanha não funciona somente para o público externo. Funcionários da Rodosol também estão participando de ações sobre a causa. "Nós estamos alertando os nossos funcionários também sobre o assédio. É importante ampliarmos sobre essa situação", finalizou.

Perguntada sobre as estruturas das cabines da Rodosol, que deixam as funcionárias expostas, Márcia defendeu a questão de que as mulheres precisam ser respeitadas independentemente de onde estejam, que elas "estão ali trabalhando, têm uma família e não devem se esconder para evitar os assédios".

COMO AGIR DIANTE DE UM ASSÉDIO?

A psicóloga e mestre em Segurança Pública Elaine Bonorino explicou que os homens, por, na avaliação dela, vivermos em uma sociedade machista e sexista, não veem problemas em determinadas ações. Ela aproveitou para citar que o Espírito Santo é o segundo Estado do país com mais casos de violência contra as mulheres e que, para quem não sabe, dizer que quando uma pessoa dirige mal "só por ser mulher", também se trata de assédio, desta vez, assédio moral.

A maioria das pessoas pensa que, quando falamos como feministas, temos ódio dos homens. Não é isso. Só queremos igualdade de condições onde os homens respeitem as mulheres. Temos que trabalhar em cima da cultura, desconstruir essas crenças machistas

Sobre o caso da funcionária que é assediada diariamente na cabine da Rodosol, Elaine destaca que é importante que ela tenha um acompanhamento psicológico para saber agir diante de uma situação desagradável. 

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"Lembre de que as mulheres que usam burca em países árabes, por exemplo, também são assediadas e também são violentadas e estupradas. Tudo isso, que começa com um assédio e uma cantada não correspondida, pode chegar no ápice da violência contra a mulher: o feminicídio. Não se interessou? Diga não. Ele não respeitou? Denuncie", finalizou.

CANAIS DE DENÚNCIA

Assédio sexual é crime e as vítimas devem procurar o Distrito Policial de Atendimento à Mulher mais próximo para que a denúncia seja formalizada e o caso investigado para o executor do ato seja punido.

Outros meios para denúncia são: ligar para o telefone do Centro Integrado de Defesa Social (Ciodes) pelo número 190, ou para a Central de Atendimento à Mulher pelo número 180.

Um dos folhetos da campanha "Tá na cara que assédio é crime"
Um dos folhetos da campanha "Tá na cara que assédio é crime"
Foto: Divulgação | Rodosol

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