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Ex-governador do ES, Gerson Camata é assassinado em Vitória

O autor do disparo é um ex-assessor de Camata, que foi preso minutos após o crime

Foto: Internauta | Gazeta Online

O ex-governador do Espírito Santo Gerson Camata (MDB) foi assassinado na tarde desta quarta-feira (26) na Praia do Canto, em Vitória. Ambulâncias foram ao local, mas ele não resistiu ao ferimento e morreu no local, aos 77 anos. O crime ocorreu perto de uma banca de revistas localizada na esquina entre as movimentadas ruas Chapot Presvot e Joaquim Lyrio.

Camata estava sozinho quando foi baleado. Desde os primeiros momentos suspeitou-se de execução. Como o local é movimentado, transeuntes viram o momento em que Marcos Venicio Moreira Andrade, 66 anos, efetuou o disparo. Mais conhecido como Marquinho, ele era um ex-assessor de Gerson Camata, com quem trabalhou por cerca de 20 anos.

O tiro atingiu o ombro esquerdo de Gerson Camata. De acordo com as autoridades policiais, a bala transfixou todo o corpo e saiu no ombro direito, depois de atingir órgãos vitais. 

Foto: Patrícia Scalzer

O assassinato causou perplexidade. Apesar de morar na Ilha do Frade, também na Capital, Gerson Camata era um assíduo frequentador da região e não havia notícias de que ele conservava inimigos que pudessem matá-lo. O crime gerou grande repercussão

Sobrinho do ex-governador, o policial rodoviário federal Edmar Camata foi ao local do crime. Ele lamentou a morte do tio e desabafou sobre a violência.

A reflexão que fica é sobre a banalização da vida. Mesma banalização que a gente vê em uma área pobre, é a mesma que em uma área rica. A vida vale pouco, as pessoas matam por nada... Mudar isso requer um envolvimento coletivo, uma visão ampla, que não é só liberar arma e produzir mais violência
Edmar Camata

PRISÃO

Às 18h10, a Secretaria de Estado da Segurança Pública confirmou que o homem apontado como autor do crime havia sido detido e levado para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Depois de atirar, Marcos Venicio dirigiu-se a um estabelecimento comercial localizado a poucos metros do local do crime. O dono do comércio era um conhecido, que acionou o então delegado Danilo Bahiense. O policial foi ao local e deu voz de prisão ao atirador. 

Na delegacia, Marquinho confessou ter praticado o crime. A declaração foi registrada em vídeo divulgado pela Sesp. A gravação tornou-se alvo de crítica da defesa do assassino

O suspeito foi preso por volta das 18h15 desta quarta-feira (26) e presta esclarecimentos na DHPP de Vitória
O suspeito foi preso por volta das 18h15 desta quarta-feira (26) e presta esclarecimentos na DHPP de Vitória
Foto: Ouvinte | CBN Vitória

LUTO DE 7 DIAS

O governador Paulo Hartung decretou luto de sete dias e colocou o Palácio Anchieta à disposição para a realização do velório de Camata.  

"Recebi com muita tristeza a notícia da morte de um amigo, nosso querido ex-governador Gerson Camata. Gerson foi o primeiro governador eleito no nosso Estado no período de redemocratização do país. Fez um governo realizador e que entrou para a história dos capixabas. O Espírito Santo perde uma de suas principais lideranças. Decretei luto oficial de sete dias . Suspendi imediatamente todas as minhas agendas de trabalho para acompanhar de perto a apuração desse crime tão bárbaro. Estou colocando o Palácio Anchieta à disposição da família Camata para que o funeral seja realizado na sede oficial do governo", disse.

O velório levou milhares de pessoas à sede do Poder Executivo do Espírito Santo. A Casa Militar estimou a visita de pelo menos 5 mil pessoas, entre políticos, autoridades e populares. Esposa de Camata, a ex-deputada federal Rita Camata (PSDB) chegou amparada pelo filho.

Gerson Camata despachou no prédio onde foi realizado o velório entre 1983 e 1986, quando governou o Estado. Ele foi o primeiro governador do Estado após a redemocratização.

Na condição de governador eleito do Espírito Santo, Renato Casagrande, emitiu nota de pesar sobre o assassinato de Camata. "Consternado com o brutal assassinato do ex-governador Gerson Camata. Lamentável que um homem como ele, que tanto contribuiu para o desenvolvimento do nosso Estado, tenha perdido a vida de forma tão trágica. Nos despedimos hoje, com muita tristeza, desse líder carismático e agregador, que fez história no Espírito Santo. À família, meus sentimentos e minha solidariedade nesse momento de dor", afirmou.

PERFIL DE CAMATA

Gerson Camata se formou em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e  também atuou no jornalismo policial na década de 1960, no programa Ronda Policial, da Rádio Espírito Santo, que era líder de audiência.

Ele iniciou a carreira política em 1967, como vereador de Vitória, pelo partido Arena. Em 1970, elegeu-se deputado estadual, e em 1974, deputado federal pelo Espírito Santo, pelo mesmo partido. Foi reeleito em novembro de 1978 e, com a extinção do bipartidarismo em novembro de 1979 e a consequente reorganização partidária, filiou-se ao PMDB, de oposição ao governo. Em 1981, casou-se com a ex-deputada federal Rita Camata.

Gerson Camata quando esteve no estúdio da Rádio CBN
Gerson Camata quando esteve no estúdio da Rádio CBN
Foto: Vitor Jubini | Arquivo | GZ

Em 1982 lançou sua candidatura ao governo do Espírito Santo, e venceu o pleito com 67% dos votos. Gerson foi o primeiro governador eleito após a redemocratização, e comandou o Estado de 1983 a 1986. Em 1986, desincompatibilizou-se para concorrer ao Senado, sendo substituído pelo vice-governador José de Morais.

Gerson Camata atuou na Assembleia Nacional Constituinte. Na mesma ocasião, sua então esposa, Rita Camata, que concorreu a deputada federal constituinte e se elegera como a mais votada no estado, também assumiu seu mandato. Reelegeu-se em 1994 e em 2002, totalizando 24 anos de atividade no Senado.

No último mandato, em maio 2006, assumiu a Secretaria de Desenvolvimento, Infraestrutura e Transportes do Espírito Santo a convite do governador Paulo Hartung e ficou no cargo até novembro.

De seu casamento com Rita Camata, teve um casal de filhos, Bruno e Enza Rafaela.

QUEM É MARCOS VENICIO

 

Durante cerca de 20 anos, Marcos Venicio Moreira Andrade foi uma espécie de "faz tudo" de Gerson Camata, e descrito como alguém pacato. No entanto, em meados de 2009 a relação de ambos fez água. Houve um rompimento traumático por conta de denúncias de Marquinho contra o ex-chefe.

Gerson Camata era Senador pelo Espírito Santo quando houve o atrito. Segundo relatos de pessoas próximas, Marquinho queixava-se de ter perdido cargo no Banestes Seguros, no segundo governo Hartung. Pediu a intervenção de Camata, que recusou-se. 

Nesse contexto, Marcos Venicio fez uma série de denúncias contra o ex-aliados. Elas acabaram arquivadas e Marquinho precisou pagar indenização a Camata.

Desde que foi preso, Marcos Venicio não deixou mais o presídio. 

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